quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Poemas do Livro: Os Atemporais


SONHO

Meu caminho é como o éter fabuloso, obscuro e intangível.
Meu corpo é esquálido e meu toque é oniricamente surreal.
Meu reino são os jardins suspensos pelo fascínio instável.
Sou o atemporal que devora a banalidade fugaz e trivial.

Minha voz sussurra a fantasia e minha música é quimérica.
Nos meus domínios eu manipulo a física e desafio à lógica.
Onde meus dedos longos tocam, causo inspiração magnífica.
Meu ímpeto deu origem às obras-primas e à própria mágica.

Meu pecado é necessário aos meus vastos devaneios lúdicos.
A preguiça traz o ócio que liberta a contemplação filosófica dos poetas.
A preguiça traz o sono que liberta o R.E.M, deixando-me entrar como os profetas.

Eu desvendo meus épicos domínios na companhia alada do mais belo dos grifos,
As suas virtudes são muitas e sua presença é geniosa e acalentadora.
Em pouco tempo tocarei sua mente com o olhar cirúrgico de outrora.

E direi: muito prazer eu sou o sonho...

Thiago Rodrigues de souza


CAOS

Eu carrego os dados da incerteza e tenho nas mangas as falhas de comunicação.
As crises econômicas e o desespero do homem são meus ensaios.
Corrupção e meu sobrenome, e os corruptos meus fieis lacaios.
Eu danço com a entropia rasgando as leis e queimando a sua constituição.

Desordem e minha inspiração e o descontrole meu amado aliado.
Sem minha presença não há ordem, pois a própria ordem me convida.
Meu corpo é assimétrico e meus traços são tortuosos como a vida.
A sorte e o azar são marionetes nas minhas mãos tremulas pelo pecado.

Meu pecado é a avareza, pois minhas riquezas são inegociáveis.
Eu sempre quero ganhar mais e mais nos meus jogos sádicos de azar.
Os que se deitam comigo pagam o preço pelo meu pecado elementar.

Na babilônia antiga eu encontrei meu monstro de companhia.
Tiamat veio ao meu encontro e nos unimos em pacto sagrado,
Ela é a consumação vivaz dos meus desejos, no meu domínio selado.

Thiago Rodrigues de Souza


(ALEXANDRE O GRANDE)

A GUERRA

Eu fiz tribos e nações derramarem sangue em trincheiras.
Deleitei-me com a sinfonia das espadas na orquestra bélica.
Minha língua tem gosto de cortes e eu respiro a violência alheia.
Alimento-me dos órfãos e viúvas que restam da agonia esférica.

Sigo guiando as cúpulas dos governos e dos meus lacaios vis,
Enquanto a religião apóia, cega, minhas moléstias irascíveis.
Sou mundial, civil e fria, meus escravos são sempre fortes e viris.
Sou o ápice da seleção natural de uma raça de víboras instáveis.

Meu pecado é a ira com seu cálice sedento de sangue acre-doce.
Eu exalo fúria e ambição, essa é a combinação letal do meu império.
As almas sob minha regência não têm compaixão e a piedade é estéril.

Desbravo os meus domínios ao lado de um monstro nórdico.
O temido lobo Fenrir, me acompanha, com sua fúria devastadora.
Devorando os corpos que não foram achados nos combates de outrora.

Thiago Rodrigues de Souza.



SUICÍDIO

Sou um ente deveras poderoso e tenho sido muito solicitado.
Encontrar-me é a comprovação fidedigna do livre-arbítrio.
Escolher ativamente o instante do fim inevitável, num ato conjurado.
O poder de escolher a não existência é meu grandioso ofício.

Entrego-me a poucos, pois muitos são os que procuram minha mente.
Ofereço um poder de escolha que foi negado até aos anjos caídos.
O homem nunca pediu a existência, e foi jogado num jogo contingente.
O homem é o acidente orgânico do pós-coito híbrido dos acorrentados.

Diante dessa entropia entrego-me a ti, pois nem Deus pode ter-me,
A morte é minha mentora, ela não precisa tentar, a resposta está nela,
Meu pecado é a inveja, pois meu poder é limitado diante dela.

Meu monstro de companhia é o Basilisco com seu olhar mortal.
É o olhar dos que têm a inveja na alma e com os olhos destrói as almas alheias.
Eu sigo com meu evangelho impar sempre buscando as mais frias veias.

Thiago Rodrigues de Souza


A MORTE

O meu pálido corpo caminha entre as lápides e mausoléus.
O meu canto é sádico e a minha presença é indispensável.
Sou um ser necessário e carrego o peso da ordem mutável.
Sem mim a vida seria insuportável, caótica e cheia de réus.

A vida me pede passagem e eu seleciono quem vai e quem fica.
Meu pecado é sem dúvida a gula, meu apetite é insaciável.
Ando na companhia de um monstro atroz e infalível.
O Cão Cérbero fareja as almas que esperam minha visita tísica.

Gosto dos assassinos e suicidas, apesar de estarem em pólos opostos.
Vi diversas formas de extrema unção selarem os meus feitos.
Minha função é mórbida e minhas realizações não têm defeitos.

Sou o ente mais temido e incompreendido entre os atemporais.
Sou o fato consumado e de mim não há fuga ou argumentação.
Cedo ou tarde lhe farei uma visita fúnebre sem aviso de antemão.

E direi: muito prazer eu sou a morte...

Thiago Rodrigues de Souza

Sonho que deu origem à poesia e à música: Portas Fechadas


Sonho das Portas Fechadas.

Thiago Rodrigues de Souza.


No sonho eu acordo num lugar muito alto, estava sozinho dormindo em cima de uma caixa d’água de concreto gigantesca que fica no bairro Pacheco em Ilhéus. A forma arquitetônica da caixa d’água é única: lembra um disco voador de concreto em forma de octógono suspenso a 100 metros de altura por quatro colunas de concreto, com uma escada em espiral entre as quatro colunas. É uma noite silenciosa e melancólica (ao menos é esse o sentimento que eu tenho quando acordo no sonho). Olho curioso pra baixo e não vejo um ser vivente sequer, ainda olhando pra baixo ouço o chirriar de corujas inquietas e penso nisso como um presságio, olho pro alto e não vejo a Lua sinto-me mau por isso. Olho em seguida para o horizonte da cidade e ouço uma voz feminina que rasga o silêncio, o tom da voz é de clamor, mas não consigo identificar nem entender as palavras que a voz expressa. (Não sei ao certo se eu não compreendia o que a voz dizia ou se eu ao acordar não consegui lembrar, mas o tom de clamor é nítido em minha mente até agora).
Sinto-me realmente curioso e perturbado com aquela voz, que não era um grito de socorro nem uma voz desesperada frente ao perigo eminente, era como um canto lamurioso que realmente me atraiu como um imã. Olho para cima é ainda não vejo a lua, o que me causa mais aflição. Desço rápido, mas não correndo, as escadas da caixa d’água e chego à rua de paralelepípedos assimétricos, a noite está muito escura, uma penumbra densa que revela de forma tísica as silhuetas dos entes de concreto em meu caminho. Sigo eufórico e perturbado a voz, tateando pela penumbra sem lua, uma neblina rala ofusca mais o meu caminho guiado pela voz lamuriosa.
Depois de caminhar, às cegas, por algum tempo, chego aos portões da Catedral da Piedade em Ilhéus, encontro o cadeado do portão aberto e a voz está mais alta e vindo lá de dentro, fico apreensivo em entrar, mas sou acalentado por um impulso juvenil e me sinto impelido a entrar. A primeira coisa que meus olhos vêem é escuridão e um corredor gigante cheio de portas fechadas, paredes altíssimas e janelas imensas com vitrais, tudo está muito escuro e eu não consigo ver os desenhos dos vitrais. (Nunca entrei na Catedral da Piedade e não tenho idéia de como possa ser o seu interior) Entro tateante e sigo a voz que não para de me atormentar fazendo com que dois sentimentos se mesclem: curiosidade e medo. A escuridão me mostra no corredor varias silhuetas em movimento e não consigo distingui-las, são muito estranhas para minha compreensão. A voz vai ficando mais alta e nítida, mas ainda não consigo identificar as palavras ou entender o que esse canto lamurioso diz.
Fico curioso com as portas e toco com o ouvido uma delas, escuto coisas atrás da porta: vozes, gemidos, confusão, risadas, palavrões, brigas, barulho, estrondos. Percebo depois que em todas tem barulho e confusão. Mas não consigo abrir nenhuma das portas, todas estão trancadas. Tateio no chão perto às portas pra ver se consigo encontrar alguma chave, mas não encontro nada. Continuo seguindo por entre as portas e consigo perfeitamente distinguir entre a voz que eu estou seguindo e os barulhos que vêm das portas. Eu fico angustiado por que o corredor não termina e o escuro me faz tremer a espinha, até que eu sento em frente a uma das portas e me ponho a lamentar também tentando imitar a voz que eu estou seguindo e consigo deixar as duas vozes em uníssono. Isso me causa espanto e angustia. Sentado com meu desespero vejo ao longe vinda de cima um feixe de luz que entra pelos vitrais e percebo que é a luz da lua, que clareia parcialmente o corredor e revela os desenhos dos vitrais. A imagem é aterradora: nos vitrais tem a forma em mosaico colorido de dois anjos, um branco com asas negras e um negro com asas brancas, ambos estão sendo traspassados, empalados, com uma estalagmite que nasce do chão, a ponta da estalagmite traspassa das costas ao abdômen, na altura do umbigo, dos anjos. Dois anjos deitados e traspassados, um em cada estalagmite, um de frente para o outro. Ambos não tinham faces definidas, eram como borrões as faces, mas pela posição dos braços e das pernas estavam vivos e em agonia atroz. Percebo com detalhe que faltava uma asa de cada, ou seja, ambos tinham apenas uma asa. Olho mais um pouco aquele desenho “Danteano” e percebo que não eram os anjos que estavam sem uma das asas mais o vitral que estava faltando um pedaço em ambos os lados. Em todos os vitrais tinha o mesmo Desenho e todos estavam faltando às mesmas partes.
Com a visão dos vitrais iluminados pela luz da lua, começo a ter espasmos nervosos e artísticos começo a correr em êxtase para os lados batendo-me nas paredes e nas portas. Até que nessa confusão solitária e regida pela voz lamuriosa e a luz da lua, vejo por entre uma das portas um feixe de luz que revela que só aquela porta estava entre aberta, coisa que antes não tinha visto. Vou devagar e com a mão abro devagar a porta que faz um barulho irritante e revela minha presença. Ao abrir vejo um grande salão vazio só com uma penteadeira antiga com um grande espelho e uma mulher ruiva com um penteado do século XV ou XVI, o penteado bem armado com jóias segurando a armação do cabelo, um longo vestido verde, pesado e cheio de detalhes. E na parte de cima do busto nada, nua, com seios fartos e um pouco de barriga como eram pintadas as mulheres no auge do Romantismo.
Ela está sentada frente ao espelho e não olha para trás pra me ver, mas sim me vê através do espelho e eu vejo seu rosto e seus seios através do espelho também. Fico atraído por sua beleza vertiginosa, mas não consigo falar nada pra ela, não que eu não queira ou não tivesse o que falar, mas por que eu me sentia sobrenaturalmente mudo, ela espera ainda algum tempo, como se eu estivesse em torpor diante daquele ser belo e obscuro, olhando pelo espelho nos meus olhos. Até que ela aponta para a parte escura do salão, levantasse ainda de costas sem olhar para mim e segue andando lentamente para o mesmo canto escuro. Fica impossível de vê-la ou ouvi-la. Todo o salão começa a ficar escuro novamente e a escuridão chega até mim e cobre-me por completo olho pra cima e não vejo mais sinal da lua.
(Eu acordo no escuro sem saber onde eu estou até que lembro e acendo a luz. Não consegui mais dormir essa noite).


SÍMBOLOS JUNGUIANOS IDENTIFICADOS.

- Caixa d’água.
- Altura.
- Voz de clamor feminina.
- Busca da voz, sozinho na noite e na neblina.
- Catedral.
- Corredor com portas fechadas.
- Barulho de confusão através das portas.
- Escuridão.
- Procura das chaves no tato e no escuro.
-Vitrais no escuro.
- O surgimento da lua.
- Espasmos artísticos de euforia.
- A pintura aterradora dos Vitrais.
- Vitrais incompletos.
- Vitrais repetidos.
- A lua revela uma porta aberta
- Mulher estranhíssima que olha através do espelho.
- Fuga da mulher para o escuro.
- Deslocamento da Lua.
- Aglutinação do escuro novamente em todo o ambiente.
- Despertar real em escuro real.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Artigo Acadêmico: O amor e o sedutor estético: Mímesis e Semiose.

Soren Kierkegaard

O AMOR E O SEDUTOR ESTÉTICO: MÍMESIS E SEMIOSE. [1]

Thiago Rodrigues de Souza.


Tomando como objeto de estudo os campos de atuação e de interpretação do sedutor estético, Johannes, personagem central da obra literário-filosófica de Søren Kierkegaard que se intitula: “O Diário de um Sedutor”, podemos encontrar um ser dotado de uma capacidade extremamente evoluída para desvelar, por entre caminhos quiméricos e tortuosos, o que de interessante e poético existe na vida. A análise que aqui se segue pretende dentro de um exame semiótico, peirceano, e da mímesis, platônica, dar uma nova roupagem ao amor romântico seguindo o viés de interpretação do sedutor estético em oposição ao sedutor vulgar. Trata-se de tentar absorver, nas malhas da análise, traços quase imperceptíveis dentro da interpretação do sedutor estético sob a formatação corrente do amor romântico.
Para tanto, faz-se necessário, um breve olhar panorâmico sobre a semiótica peirceana, num contexto fenomenológico. Entendemos por fenômeno, palavra derivada do grego Phaneron, tudo aquilo, qualquer coisa, que aparece à percepção e à mente. A Semiótica (do grego semeiotiké) é a ciência geral dos signos e da semiose que estuda todos os fenômenos culturais como se fossem sistemas sígnicos, isto é, sistemas de significação, e está intrinsecamente ligada à fenomenologia. Para o cientista, lógico, matemático e filósofo norte-americano, Charles Sanders Peirce (1839-1914), o homem significa tudo que o cerca numa concepção triádica, há três elementos formais e universais em todos os fenômenos que se apresentam à percepção e à mente. Num nível de generalização máxima, esses elementos foram nomeados de primeiridade, secundidade e terceiridade.
A primeiridade aparece em tudo que estiver relacionado com acaso, possibilidade, qualidade, sentimento, originalidade, liberdade. A secundidade está ligada às idéias de dependência, determinação, dualidade, ação e reação, conflito, dúvida. A terceiridade diz respeito à generalidade, continuidade, crescimento, inteligência. Segundo Peirce, a forma mais simples de terceiridade manifesta-se no signo, pois ele: é um primeiro (algo que se apresenta à mente), ligado a um segundo, (aquilo que o signo representa ou se refere), e um terceiro, (o efeito que ele irá provocar em um possível intérprete).
No entanto essa ramificação conceitual triádica, sistematizada por Peirce, é só a ponta do aiceberg de um conglomerado de raizes que vão se bifurcando numa relação em cadeia, recíproca, para dar conta das multiplas polaridades do signo em seu viés semiótico. A apreciação de Lúcia Santaella ( 2005: 11) sobre a complexidade que envolve o tema de que estamos tratando é bastante instrutiva:
“a fenomenologia perciana fornece as bases para uma semiótica anti-racionalista, antiverbalista e radicalmente original, visto que nos permite pensar também como signos, ou melhor, como quase-signos, fenômenos rebeldes, imprecisos, vagamente determinado, manifestanto ambiquidade e incerteza, ou ainda fenômenos irrepetíveis na sua singularidade.”

Segundo Santaella, qualquer coisa pode ser analisada semioticamente, desde um suspiro, uma música, uma ópera, uma pintura num museu, um teorema, um livro, um sentimento, uma paixão, uma poesía, incluido as percepções que temos desses fenômenos no contexto sígnico. Essa potencialidade é, de fato, o resultado da ligação muito íntima da semiótica peirceana com a fenomenologia.
Seguindo os trilhos da análise central do trabalho e voltando ao exame, do sedutor Kierkegaardiano, podemos perceber que semioticamente a natureza poética do sedutor estético engendra uma linha tênue só dele, não é nem suficientemente rica, nem suficientemente pobre para distinguir entre poesia e a realidade. Como se seus passos intelectualmente precisos e esteticamente calculados deslizassem conscientemente nas entrelinhas de um dos poemas de Lord Byron. O tom poético capaz de mudar, interpretativamente, os augúrios enfadonhos do cotidiano, era fornecido em excesso por ele próprio, cujo gozo, ele ia colher na situação poética da realidade, e que retomava sob a forma de reflexão estética. O próprio Kierkegaard (1979: 147) o descreve:
“Primeiro ele gozava pessoalmente a estética, depois gozava esteticamente a sua personalidade. Gozava egoisticamente, ele próprio, o que a realidade lhe oferecia, bem como aquilo com que fecundava essa realidade; (...) Tinha a constante necessidade, no primeiro caso, da realidade como ocasião, como elemento; no segundo caso a realidade ficava imersa na poesia.”


Kierkegaard ao descrever o contexto ambiental do sedutor estético faz alusão a um mundo que subsiste, em um plano último, detrás do mundo que vivemos; à relação recíproca entre aquele e o mundo real assemelha-se à que existe entre duas cenas num teatro ou numa ópera, uma cena por detrás da outra. Através de uma leve cortina, pode-se distinguir um mundo mais leve, mais etéreo, de uma outra qualidade que a do mundo real. Muitos daqueles que reverberam em carne e osso pelo mundo real não lhe pertencem, mais sim ao paralelo. Segundo Kierkegaard, se perder pouco a pouco nas malhas que ofuscam o cotidiano, ou seja, quase desaparecer da realidade, pode ser saudável ou mórbido.
No caso do sedutor Kierkegaardiano é mórbido. O sedutor estético não pertencia à realidade e, no entanto, tinha muito a ver com ela. Passava a jogar, friamente, sempre acima da realidade, e mesmo quando mais se lhe entregava, estava longe dela. Contudo, não era o bem que o afastava da realidade, nem tão pouco o mal, segundo o autor havia nele um pouco de exacerbatio cerebre (exaltação da mente), neste sentido, portanto, essa exaltação estética da mente suprimia a deficiência da realidade cotidiana quanto a um estimulo suficientemente forte para saciar a sua mente sedenta de continua contemplação estética.
A realidade, portanto, lhe oferecia fragmentos soltos de estímulos e sempre de modo fugidio e efêmero. Logo que a realidade perdia sua importância como estimulante, ficava desarmado, e nisso consistia o mal que o habitava. Ele não sucumbia ao peso da realidade, para ele, suportar esse peso era uma fraqueza, no entanto, ele era demasiado forte; mas tal fortitude era a sua doença. Tinha consciência disso, mesmo no momento do estimulo, e o mal estava nessa consciência. Seus dotes intelectuais e suas exigências estéticas, no entanto, eram os instrumentos que norteavam essa consciência.
O diário do sedutor segue por entre as cartas que ele escreveu para o objeto central de sua sedução, a jovem Cordélia, cuja historia preenche a maior parte do diário, e as narrativas pessoais que desvendam as reais motivações e intenções estéticas e miméticas de cada ação dele e de cada carta. Para se compreender essa primeira marca de distinção entre as cartas do esteta e as páginas correntes do seu diário, os conceitos de objeto imediato e objeto dinâmico do signo podem nos ajudar.
Que todas as cartas e todas as páginas correntes do diário e o próprio diário são signos deve ser uma constatação evidente. São realmente hipoícones que representam seus objetos por semelhança. Há uma distinção que Peirce estabeleceu para o objeto que pode nos ajudar a compreender melhor as relações do fundamento do signo com seu respectivo objeto. Essa distinção é a do objeto imediato e a do objeto dinâmico. O modo como o signo representa, indica, se assemelha, sugere, evoca, aquilo a que ele se refere é o objeto imediato, no nosso caso, as cartas para Cordélia, as folhas correntes do diário e o próprio diário do sedutor.
O conteúdo sobre o que o signo trata o contexto, o sentido, a significação do signo é o objeto dinâmico, no nosso caso, o objeto dinâmico do diário, das páginas correntes do diário, é o sedutor estético em si, e as reais intenções dele para com Cordélia, para com o outro e para com a realidade. No caso das cartas para Cordélia, o objeto dinâmico é o amor romântico, polido pelos imperativos estéticos, que eram descritos sempre poeticamente para Cordélia, que por sua vez interpretava de forma sígnica aquelas cartas que exalavam sinceridade, vigor, intelectualidade, estética e amor romântico.
Decerto há um hiato entre o objeto imediato e o dinâmico no caso do diário do sedutor, e em especial às cartas para Cordélia. O tempero exótico que davam às cartas, do sedutor, o poder de armas letais; era justamente a mímesis de que se servia para se guiar num jogo estético, lúdico e quimérico; em que o objeto de seus estímulos constantes, Cordélia, seguia vendada por entre os labirintos tortuosos de uma mente corruptivelmente estética.
Tomando como objeto de análise semiótica o próprio sedutor Kierkegaardiano, poderemos engendrar o seguinte exame: O objeto imediato é o próprio sedutor estético, ele possui um objeto dinâmico: o seu Eu, que permanece latente diante de suas relações interpessoais; o mesmo sedutor estético cria uma representação desse objeto dinâmico para o outro, através de máscaras comportamentais, disfarces sociais, alegorias emocionais e até mesmo simulacros morais. O outro por sua vez interpreta, com seus critérios, a representação do esteta frente ao objeto dinâmico do mesmo, ou seja, frente ao Eu do esteta que está camuflado por sua representação sígnica. É nesse jogo mimético e entrópico que se fundam os alicerces de todas as relações interpessoais do diário de um sedutor.
Para um melhor posicionamento analítico, a saber, na relação da mímesis dentro do contexto sígnico; tomemos a mímesis platônica, seguindo o mesmo viés, conceitual, de investigação, não em seu todo estrutural, mas apenas extraindo o fragmento da mímesis-práxis, para análise. Traçando um paralelo análogo entre este e a semiótica peirceana, ou seja, a mímesis da ação dentro do contexto sígnico proposto no problema central. O autor Marcelo Marques (2006: 353), em sua análise do livro O Sofista de Platão, vai especificamente tratar do exame da mímesis da ação:
“Quando o Estrangeiro diz que o produtor, enquanto imitador, não pode ser diferenciado de seu produto, porque ele usa seu corpo como instrumento, para poder tornar-se semelhante a um outro indivíduo, ele está, na verdade, propondo o problema da imitação como ação (mímesis – práxis).”

Para o autor Marcelo Marques, o exame da mímesis da ação, no Sofista, trata da mímesis de atores e rapsodos, mas também da mímesis dos atores-agentes que desenvolvem papéis enganadores, seja na vida pública, seja em círculos restritos. A produção de uma falsa imagem de si mesmo, por parte do sofista, como alguém que sabe tudo, foi o ponto de partida da investigação platônica, no Sofista, dentro da (mímesis – práxis).
Por esse viés mimético o sedutor estético Kierkegaardiano norteia suas ações e molda seus signos. Como um ser naturalmente quimérico nos jogos semióticos que regem suas ações em prol à estética. O esteta é inclinado à produção consciente de imagens falsas e simulacros, com o intuito, consciente, de esconder o seu Eu do outro. Ele utiliza-se da mímesis pra esculpir nos seus signos os efeitos que foram cuidadosamente estudados, para que os estímulos estéticos fossem degustados por ele em pequenas e prolongadas doses.
Em última análise, no presente trabalho, trataremos de tentar absorver, nas malhas da investigação semiótica, traços quase imperceptíveis dentro da interpretação do sedutor estético em oposição ao sedutor vulgar. Com efeito, todas as imagens criadas pelo sedutor vulgar só sobrevivem na medida em que o ser humano real, ou seja, o objeto dinâmico que existe por trás dessas imagens, consegue manter o apelo ao objeto de sua sedução. Basta o ser existente, objeto das imagens, envelhecer, gastar-se um pouco para que esse apelo também comece a fenecer. Os signos da sedução vulgar dependem da existência dos seres de que os signos são os registros. Desaparecendo os seres de que os signos registram, esses signos também desaparecem. Esses signos precisam da existência do objeto dinâmico para existir.
Nesse caso, quando há a ausência do sedutor vulgar, perante o objeto de sua sedução, ou no desaparecimento da sua vida, ininterruptamente sugada pelos índices, eles próprios, os índices também desaparecem. Essa é a fragilidade de que são feitos os índices, do mesmo modo que a fumaça só existe quando existir o fogo. Acabando o fogo, cessa-se a fumaça. Acabando o que o signo, índice, representa, acaba-se também o próprio índice. Depois de muito pouco tempo o máximo que pode restar desses índices, criados pelo sedutor vulgar, é a nostalgia. E conforme o tempo passar, esses índices não serão nada mais do que flash’s nostálgicos, apagados da memória do objeto de sua fracassada sedução.
Um sedutor estético, um artista, ao contrario, eclipsa sua vida na produção de uma obra. Entrega sua vida e sua lucidez a essa produção. Muitas vezes, vive uma existência obscura, longe das praças públicas e das vitrines, submergido no constante estudo estético para realização de sua obra. Por isso mesmo, sua vida transcende o contato físico, e continua nessa obra. Diferente dos índices criados pelo sedutor vulgar que dependem da carne e osso do objeto dinâmico, ou seja, do próprio sedutor vulgar.
Para o esteta, o sedutor vulgar está enredado nas malhas da realidade cotidiana, está com os olhos vendados para os fenômenos que se apresentam por detrás das cortinas miméticas, estremece-se e fica exausto tão só termina de saciar os imperativos da carne. Para esse sedutor o interesse no seu objeto de sedução é estéril e morre tão somente quando acaba à troca de fluidos do frenesi lascivo. O sedutor estético, por outro lado, é filho de um outro mundo. O Diário mostra, com efeito, que o esteta desejava, por vezes, algo de totalmente arbitrário, uma saudação, por exemplo, e por preço algum queria obter mais do que essa saudação, por ser essa saudação àquilo que a pessoa em questão possuía de mais belo. Sob a égide dos seus dotes espirituais e estéticos, sabia tentar uma jovem e, com maestria, atraí-la a si, sem se preocupar com possuí-la, no sentido carnal do termo.
Os signos icônicos da sedução do esteta, criam vida própria, desprendem-se dele, ou seja, perduram na ausência do objeto dinâmico, ganhando uma longevidade muito mais durável do que poderia imaginar o seu objeto de sedução. O fascínio artístico do esteta invadiu a mente de Cordélia, deixando lá, por tempo indeterminado, sua marca, sua insígnia, sua impressão digital. Por essa razão, a arte do esteta não produz nostalgia. Sua realidade não está presa a um índice, não está presa ao carnal, mas sim acorrentada ao espírito do objeto de sua sedução. O Sedutor estético, Johannes, identifica com muito ímpeto e convicção o sedutor vulgar, e logo depois se descreve da seguinte forma:
“Aquele que não sabe fazer o certo a uma donzela até que ela perca tudo o mais de vista, aquele que não sabe, à medida do seu desejo, (...) esse homem é e será sempre um desajeitado; não invejo o seu prazer. Um tal homem é e sempre será um inábil, um sedutor vulgar, termos que de modo algum se podem aplicar a mim. Eu sou um esteta, um erótico, que apreendeu a natureza do amor, a sua essência, que crê no amor e o conhece a fundo, e apenas me reservo a opinião muito pessoal de que uma aventura galante só dura, quando muito, seis meses, e que tudo chegou ao fim quando se alcançam os últimos favores. Sei tudo isto, mas sei também que o supremo prazer imaginável é ser amado, ser amado acima de tudo. Introduzir-se como um sonho na imaginação de uma jovem é uma arte, sair dela ileso, é uma obra-prima.”


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KIERKEGAARD, Søren Aabye. Diário de um Sedutor. Tradução de Carlos Grifo. São. Paulo: Abril Cultural, 1979. (Coleção Os Pensadores).

MARQUES, Marcelo P. Platão, pensador da diferença. Uma leitura do Sofista. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2006.

PEIRCE, Charles Sanders. Collected Papers of Charles Sanders Peirce. Editada por C. Hartshome, P. Weiss e A. Burks. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1931-1958, 8 volumes.
_____. Semiótica. São Paulo: Perspectiva, 2003.

PLATÂO – A República, Trad. Pietro Nassetti, Ed. Martin Claret Ltda – Rua Alegrete, 62 – Bairro Sumaré – São Paulo – SP, 2006.

SANTAELLA, Lúcia. O que é Semiótica. São Paulo, Brasiliense, 1983.

SANTAELLA, Lúcia. Semiótica aplicada. São Paulo: Thomson, 2005.


[1] Texto apresentado no seminário “A Fenomenologia e as Ciências Humanas”.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Poemas do Livro: Catedrais Suspensas


RENASCER DAS CINZAS

Meus olhos exaustos escarnecem dos meus sentidos.
O sono surge para enfraquecer meus membros viris.
As chamas dos meus sonhos vêm consumir meus medos,
Transformando em cinzas as minhas lembranças mais vis.

Para tornar, todos os dias, a mente ilesa e incorruptível,
Deve-se entregá-la às chamas vivas das entranhas de Oniro,
E deixar a legião dos sonhos queimar o que há de deplorável.
Dessas cinzas nós renascemos a cada despertar do abrigo.

Sábios são os que mergulham nas chamas profundas do sonho.
Revigorados são os que renascem das próprias cinzas noturnas.
Afortunados são os que ainda têm o que queimar da vida diurna.

Como a imortal ave dos gregos, faço das chamas meu esteio.
Queimando noite após noites os fantasmas cruéis da minha mente.
Das cinzas, renasço uma criança e saio do antigo armário dos entes.

Thiago Rodrigues.

VISÕES.

Uma criança escondida num antigo armário.
A noite é longa e há medo em suas pupilas medonhas.
Num corredor entre a penumbra e sombras estranhas.
Lá fora a lua cheia escala as frestas do santuário.

A criança vê uma mulher com a face mutilada.
E cavalheiros que circulam a mulher em real agonia.
A escuridão tem suas próprias regras de lobotomia.
Deixando a criança estática, pálida e com a língua embolada.

Seria a morte tentando seduzir minha tenra infância?
Ou seria a mente tentando surrealizar minha inconstância?
As chaves do antigo armário estão costuradas nas respostas.

Estudos clínicos podem te confortar ou lhe assombrar.
Um drink num bom bar pode fazer a mão tremula parar.
Mas não vão tirar a criança do escuro, onde ela está.

Thiago Rodrigues.



TERRA DO NUNCA

Numa terra de antigos coronéis e prostitutas de luxo.
Um paraíso da costa-sul erguido por tocaias e ruínas.
Eles entram nas sombras das catedrais, escalando o lixo.
Com seus tubos de cola e armas ocultas nas esquinas.

Passam a noite à procura de um líder que os salvem,
Dos labirintos insanos das suas mentes anestesiadas.
São imunes à polícia, mantendo a idade como refém.
Enquanto os burgos revendem as suas cheiradas.

Quando o sol nasce para irritar as criaturas noturnas.
Corpos dormem no chão frio dos bancos centrais.
Na terra do nunca algumas noites são perturbadoras.
Abrem os abismos e surgem errantes almas ilegais.

Peter Pan esteve aqui hoje, ano que vem virão outros mais.
Anunciou à cidade que ia chegar com cobertores e orações.
Em casa o natal foi farto e o filisteu vai dormir em paz.
Mas os garotos perdidos ainda estarão nas sombras das aberrações.

Thiago Rodrigues.





BOMBA RELÓGIO

Sua família o odiava, isso foi o fósforo branco.
Os amigos o condenavam, isso foi o estopim.
A polícia o caçava, ele tinha uma imagem ruim.
A nitroglicerina foi um professor moralmente manco.

Como um coquetel molotov com o pavio no fim.
Como granadas de contato em um velho trem.
Um garoto sangrando pelas úlceras de alguém.
Enquanto espera enjaulado à beira de um motim.

Esta bomba relógio está com o cronômetro quebrado.
A dor e a masturbação mental queimam o pavio marcado.
Ele está pronto para explodir todos os que dormem.

Eles tentam domar o garoto deixando em ruínas o seu refúgio.
Eles vão drogar o garoto por que é uma bomba relógio.
Eles vão violentar o garoto antes que cresça e vire um homem.

Thiago Rodrigues.




ESPORRO DA MUTILAÇÃO

Caçando um bom bar, não encontro o meu norte.
Há sangue nos meus braços e dores muito fortes.
Eu quero um drink de cólera e uma trepada cheia de cortes.
Comprimidos pela cama, jogando cartas com a morte.

Dançando, pelas sombras, na fronteira da sanidade.
Garota, se tiver o fôlego, eu tenho sua doença.
Pule no jogo agora, eu não tenho mais paciência.
Se tiver maus hábitos, não me importa sua idade.

Você não terá pra onde ir, se a sua endorfina baixar.
Você não pode fugir, vai precisar, com afinco, encontrar.
A sobrevivência te levará ao esporro da mutilação.

Seu subconsciente tentará suplantar a dor mental com a dor física.
Seus braços ardem e sua mente se acalma sentindo a música.
Na grande orquestra interna que nasce após o esporro da mutilação.


Thiago Rodrigues




ROSA COM LARVAS

Leia, sereia sedenta, esta oração que deve ser engolida.
Tire a bela máscara de porcelana e verá algo que perece.
Atirada de volta para as sombras é mais do que você merece.
Ache as entrelinhas, desse poema, no meio de uma fudida.

Ela atirou os seus tentáculos longos, podres e sifilíticos.
Você quer alcançar, como uma criança, o céu;
Mas saiba que estará novamente no banco dos réus,
Por oprimir almas e levá-las ao exílio em estado crítico.

Neste jardim necrótico até as aves são enfermas e mudas.
Você pode mergulhar no surreal e achar que está por cima.
Mas não vai te deixar ilesa da minha mudança de clima.

Não há saída pra o seu borderô de experiências imundas.
Está na hora de amarrá-la com seu amor de bruxa na fogueira.
E chutar pra bem longe suas sequelas e de suas herdeiras.


Thiago Rodrigues




UÍSQUE, ESFINGES E CRIANÇAS

Das alcovas estórias de uísque, esfinges e crianças no fim.
Nas colinas as crenças não morrem à margem do rio.
Das Janelas ocultas, crianças lamuriam pra lua no frio,
Em castelos insanos cobertos por pilhas de marfim.

Lá não há professores e os mentores estão pra nascer.
Meu uísque, uísque, uísque... não encontra o perdão.
Da infância perdida no tempo da altercação.
As crianças não queimam os olhos no alvorecer.

Num salão de sobrado com cortinas vermelhas carmesim.
As meretrizes estão a beber e os bastardos nos portões.
Subjugaram-nas a morrer e servem vinho aos anfitriões.

A festa carnavalesca das libertinas nuas com pele de cetim.
Domam, os coronéis, com seus dentes castigados pelo bruxismo.
E tentam descansar gerando os bastardos do maxismo.


Thiago Rodrigues.





ADEUS.

Você já estará no limbo tentando encontrar a porta de saída.
Esta cortina de fumaça não vai curar seu coração cortado.
Nem te esconder dos malditos fantasmas do passado.
Então discorde rápido que sua mente já foi muito despida.

Sairei antes do alvorecer e te deixarei entre os lençóis.
Eu conheço seus olhos e decifrei seus reflexos lentos.
Você dormiu e as regras do seu jogo ficaram aos quatro ventos.
Mas você já viu isso antes e sabe que não existe “nós.”

Eu disse adeus quando achou que era eterno.
Você saiu dos trilhos e escalou minhas densas memórias.
Como alguém procurando abrigo no desconhecido da história.

Eu disse adeus quando queria me jogar no inverno.
Minha ampulheta de paciência não tem mais areia pra correr.
Rasgarei meu contrato, pois não tenho mais nada a perder.


Thiago Rodrigues




AMANTE CRUEL

Tenho transado dias com você, oh amante cruel!
Sua carne é fria e não responde a nada com decência!.
Não revida o carinho, nem ao menos revida à violência.
Sua boca é o poço dos amaldiçoados que bebem fel.

Sua língua é calidamente áspera e mutila tudo que toca.
Quem vê sua face, reverbera em encostas frias e escuras,
E não importa o que se faça, não terá saída das conjecturas.
Perder, tremulamente, o fôlego é beijar sua espinhosa boca.

Ela tem sido musa de muitos dos meus dias conturbados.
Sua inspiração é única para os que não dormem há dias.
Seus olhos refletem a vivacidade nua das piores manias.


Seus braços de mármore, acalento para os excomungados.
No colo dela descansa o mais avernoso dos tormentos.
Oh solidão! Tu sempre ouves, muda, os meus lamentos...

Thiago Rodrigues.




1 MINUTO

Estou pelado no escuro, mais uma vez,
Tão só quanto algo que ainda não nasceu.
Respirava apenas as cinzas da minha calidez.
Meus braços eram queimados, pela toxina do fel.

Precisava solenemente permitir-me só um minuto;
Para tentar descansar a minha cabeça onusta.
Minhas mãos tremem sem sentir o absinto,
Que talvez fosse uma cura altruísta.


A Felicidade é como quimera pra mim,
Não tenho consciência a idílicas visões.
A melancolia inspira-me à certeza de um fim,
Como correntes rasgando as peles em altercação.

Anjos selados pela luz, transando na escuridão.
Mais um minuto, terá disritmia o suficiente;
Para criar a obra-prima sobre ascensão;
Saída dos labirintos frios da mente.

O meu mundo foi erguido e sustentado,
Com imaginário lúdico e visões confusas,
Consegui mantê-lo escondido e em bom estado,
Só que eles o acharam e queimaram minhas obras.

Cuspiram sobre minhas ilusões e me deixaram nu,
À beira do frenesi atroz dos mortais no cio.
As vendas me queimam e me tornam um réu.
Preciso de um minuto, com o silêncio.


Thiago Rodrigues.



CATEDRAIS SUSPENSAS

Em minha mente escondem-se catedrais suspensas.
Templos inconstantes de visões intensas.
Arranquei do rosto as muitas máscaras sociais.
E com a alma nua, invadi pelas sombras as catedrais.

Lá vertem lustrais límpidos e soam mórbidas harpas.
Que transam para revelar anjos mortos em estacas.
Há iconoclastas furiosos à espreita para devastar.
As imagens dos meus sonhos que pintei nas paredes deste lugar.

Muitos trovadores pereceram entre visões surreais.
Suas guitarras ainda choram nas lápides dos poetas imortais.
Almas sem medo e viúvas do tempo profano.
Que na escolha de suas obras não conhecem o engano.

Mas não tropece ao usar a chave de saída após a sentença.
Ou estará cego nos labirintos tortuosos das catedrais suspensas.
Mantenha seus demônios presos em longínquas esferas.
E com passos distantes sobreviva a muitas primaveras.


Thiago Rodrigues




CAVALEIROS DO APOCALIPSE

Eu vi tribos e nações derramarem sangue em trincheiras.
Vi espadas longas e o som que elas fazem entre costelas.
Minha língua tem gosto de cortes, eu respiro violência.
Alimento-me de agonia de órfãos e viúvas em decadência.
Sigo impune inflamando cúpulas de lideres do governo.
Enquanto a religião apóia meu delicioso jogo sádico.
Muito prazer eu sou a guerra.

Eu levo os dados de incerteza, tenho na manga as falhas de comunicação.
Eu danço com a entropia rasgando as leis e queimando a sua constituição.
As crises econômicas e o desespero do homem são meus ensaios.
Corrupção é meu sobrenome, e os corruptos meus fieis lacaios.
Desordem é minha inspiração e o descontrole meu aliado.
Muito prazer eu sou o caos.

Eu carrego uma balança desigual, meu corpo é um risco.
Meu cavalo é rápido e letal, eu me espalho como um vírus.
As pragas e secas devastadoras são minhas companhias.
Desfilo entre crianças famintas só por satisfação e mania.
Suspiro com a deformação do homem pobre sem o alimento.
Meu prazer é ver as úlceras da incompetência dos famintos.
Muito prazer eu sou a fome.

Entre lápides e mausoléus, toco minha harpa antes de sair.
Meu prazer é sádico e eu o faço, como uma arte, sem dormir.
Vi diversas formas de extrema unção, por padres impertinentes.
Gosto dos assassinos e suicidas, apesar de estarem em pólos diferentes.
Cedo ou tarde te farei uma visita fúnebre, baterei a sua porta e direi,
Muito prazer eu sou a morte.

Thiago Rodrigues



QUIMERAS NOTURNAS.

O aroma da noite me convida para sair e desvendá-la.
Nas ruas inchadas de dezembro, eu esquivo das pessoas.
Todas olham pra mim, mas eu só vejo borrões e máscaras.
Ouço uma voz leve e sussurrante e vou tentar encontrá-la.

Sigo o clamor até uma praça pública que está deserta,
Aproximo-me da bela estátua de Sapho, a poeta grega.
Escalo até o acalento do seu colo como uma criança cega.
Sinto que o frio dos lábios de mármore carrara desperta.

Paixão, ereção, fascínio, carinho materno e torpor pelo belo,
Todos eles passam um a um diante dos meus vis sentidos.
Eles mesclam-se gerando, aconchegantes, espasmos nervosos.

Eu posso sentir algo correr nas veias da estátua de Sapho.
Eu entro em torpor diante da beleza mórbida e imortal.
Então eu saio, deixando Sapho e o ser em seu colo Nupcial.


Thiago Rodrigues.




IMORTAIS.

A carne humana definha no tempo como as sobras.
Então desejei dois caminhos que me deixaram acre-doce:
Ser abraçado por um dos personagens sombrios de Anne Rice,
Ou imortalizar minhas amadas filhas do crepúsculo: minhas obras.

Nunca foi fácil para eu acreditar em vida após a morte.
Mais fácil seria ter pintado o rosto do próprio Dorian Gray.
O que se faz neste mundo pode perdurar no evo, disso eu sei!
Então darei às minhas obras o que não posso ter carnalmente.

Jorge Amado não é mais tangível, mas eu ainda vejo “Gabriela”.
E suas peripécias por todas as esquinas da “princesinha do sul”.
A obra é mais longeva que a matéria e tem a expansão do céu azul.

Os imortais tropeçaram um dia nessa percepção de sentinela.
Negaram a corrida absurda para conservar a carne que perece.
Dando a uma obra-prima a verdadeira atenção que ela merece.


Thiago Rodrigues.



O OUTRO LADO

As cabeças, hoje, estão viradas pra você.
As pessoas te reconhecem pelo pavor.
Há olhos insanos querendo seu sangue doce.
As farpas de comunicação estão presas à sua dor.
Você está no outro lado da noite.

Em que espelho noturno você atravessou.
Sua serotonina disse adeus e partiu.
Você dormiu e a inspiração passou.
Os sinais bateram na porta e você não ouviu.
Você encontrou o outro lado da arte.

Suas cicatrizes internas estão todas abertas,
E você não tem fôlego nem para assoprar.
Encontre um esconderijo, só seu, em sua mente.
Pois a morte com você, essa noite, irá dançar.
Estará no outro lado dos seus cortes.

Existe uma guerra comportamental sem idade,
Que levará a um súbito e perigoso efeito dominó.
Sua alma chora diante de suas duas personalidades.
Mesmo sem outras pessoas, você nunca mais estará só.
Você despertou o outro lado da sua mente.

Thiago Rodrigues.




O ESTETA.

Eu sou o dândi que bebe na penumbra, o trovador que entretém a morte e o progenitor remanescente dos inconstantes.
Eu sou o surrealismo no olhar dos que lamuriam,
 o expurgo hostil no colo dos iconoclastas.
Eu sou o traço trêmulo de uma criança em sua primeira criação!
Eu sou o genocídio dos ignavos, o suicídio dos pusilânimes.
Eu sou o assassino dos inertes e a angústia dos imortais.
Eu sou a força irascível dos acorrentados.
Eu sou a fleuma dos enclausurados e as máscaras dos sobreviventes.
Eu sou o orgasmo artístico diante de uma obra-prima, o frenesi de uma canção!
Eu sou os cortes de um visionário, as mutilações que impedem o suicídio.
Eu sou o sonho que ganhou vida pintado em óleo sobre tela.
Eu sou a dor reprimida em versos, a libertação doentia dos estripados,
 o sussurro dos excomungados.
Eu sou a orgia das inspirações, a dispneia dos filisteus, o silêncio violado!
Eu sou o ranger de dentes das almas que ficaram viúvas de arte.
Eu sou a cacotanásia dos estúpidos e o livre-arbítrio dos burladores.
Eu sou a arquitetura filosófica dos sedutores.
Eu sou o que flana na chuva, o que derrama lágrimas de reflexão
 e o que se perde nas nuvens da contemplação.
Eu sou a lança de Aquiles, a lira de Orfeu e a paixão de Ulisses.
  Eu sou a coluna de Frida Kahlo, a automutilação de Van Gogh
e o auto-retrato de Francis Bacon.
Eu sou o belo, o sublime e o grotesco.
Eu sou a poesia da existência.
Eu sou o cinzel da estética.
Eu sou a obra de arte que não lucrou!
Eu sou um esteta.
Um esteta eu sou...

Thiago Rodrigues.





MAR DE SANGUE

No mais belo dos litorais escondem-se histórias bárbaras.
As águas límpidas do mar de Ilhéus ainda têm o gosto das dores.
A costa sul foi banhada pelo sangue irascível dos nadadores.
Guerreiros vorazes que queriam tirar suas amarras.

As águas do cururupe ficaram vermelhas como o carmesim.
O som híbrido do mar não pôde suplantar o clamor e o torpor.
Muitos nadaram em desespero, condenados pelo executor.
Ilhados pelos barcos de Men de Sá foram dizimados no mar.

Um silêncio desolador nasce depois do último fôlego de agonia.
O mar de sangue expurga de si os corpos flagelados pelos cortes.
Quilômetros de corpos enfileirados, como troféus, na praia da morte.

Seqüelas incalculáveis que acorrentaram um povo à fobia.
Os livros de história, carregados de amnésia, perdem os fatos mentores.
Um dos alicerces sangrentos da história foi o massacre dos nadadores.

Thiago Rodrigues.




CIDADE DE FANTASMAS E RUÍNAS

Eu me sinto revigorado no seio dos meus domínios.
A cidade que respira por entre fantasmas e ruínas.
O salito e o tempo esculpem o abstrato nos edifícios.
Os fantasmas indígenas espreitam as catedrais antigas.

Os velhos salões e galpões de cacau abandonados,
Guardam as criaturas noturnas e as lendas da origem.
O lar das sombras e das lembranças dos deserdados,
Que encontraram a bruxa com sua vassoura selvagem.

Nadadores errantes caminham perdidos pelas praias noturnas.
Fantasmas sem lar que não conseguem sair de perto do mar.
Almas que ainda tentam fugir, nadando, dos barcos de Men de Sá.

A princesinha do sul envelheceu com as suas lendas de fortunas.
Hoje ela é uma vovó com um baú cheio de histórias pra contar.
Em seu colo eu adormeço em paz e não tenho pressa de acordar.

Thiago Rodrigues.




NICTOFOBIA

A escuridão é um labirinto de sombras em movimento.
Os olhos pesados de sono pedem pra dormir em paz.
As visões distorcidas do escuro dão origem ao tormento,
Numa guerra entre os monstros de uma imaginação voraz.

A penumbra fosca confunde a mente como por encanto.
Um mundo surrealmente abstrato nasce libertando o pavor.
O breu sufoca e apavora algumas crianças, com seu manto.
Paralisando a alma e esculpindo, nas faces, a expressão de horror.

Neste aspecto eu encontro o meu paradoxo quimérico.
Pois tenho verdadeiro fascínio pela noite e amo a escuridão.
Mas se meu frágil sono encontrar o escuro, eu caiu em aflição.

Assim sigo minhas noites à luz de velas ou de genéricos.
Respeitando a escuridão que tanto me apavora e me alivia.
Esse é o sentimento daqueles que compreendem a nictofobia.

Thiago Rodrigues.



PORTAS FECHADAS

Acordei no alto da antiga caixa d’água de concreto em Ilhéus.
Ouvi a sua voz, de longe, em um tom agudo como o clamor.
Não importa a distância, vou desvendá-la arrancando-lhe os véus.
Acharei você por entre aqueles que jogam cartas com a dor.
Isso simplesmente vai, no âmago, embriagar-me em anestesia.

Então eu ando pelas ruas à noite apenas tentando ficar bem.
Pois nada de valor estará a um palmo dos meus olhos cansados.
Por entre portas fechadas eu seguirei só a sua voz e acharei alguém,
Nesse corredor sem fim seguiremos por caminhos desmarcados.
Derrubarei as portas como um nefilim em melancolia.

Sigo o corredor da catedral por entre os quadros e as portas fechadas.
Não consigo digerir o que vejo atrás das portas escuras e cinzas,
Salas deformadas pelos excessos das pessoas que brigam de mãos atadas.
Mas há uma fresta de luz, no final do corredor, que me hipnotiza.
Sigo até o foco de luz deixando para trás as portas da acatalepsia.

Nessa imensidão repleta de portas sedentas pelo desperdício,
Que perturbam minha mente e consomem minha alma vez após vez,
Mostrando minhas fraquezas que talvez sejam meus cálidos vícios.
Arrastando-me além da sensatez para desvendar os enigmas da embriaguez.
Para só assim encontrar você com as roupas que descrevem está poesia.

Thiago Rodrigues.




POEIRA E OSSOS.

Todos trataram como uma aposta quando não passou de um jogo.
Mas eles saberão quando virem suas saídas todas pegando fogo.
Então você tentou fugir do padrão e mergulhou na escuridão.
Mas o tempo não foi seu amigo e sangrou seu virtuoso coração.

Você espera descansar e sair do labirinto sozinha.
Mas ouve uma falha na comunicação e você não leu as entrelinhas.
E entre mentiras e olhos vendados você procura um amor.
Cercada por poeira e ossos só encontrou o rancor.

Das janelas noturnas eu sinto os ventos frios do norte.
Enquanto me inspiro com os poetas e eruditos que venceram a morte.
Cercado por minhas pinturas e velas acesas.
Entre memórias de infância e uma atmosfera que te deixa ilesa.

Com a casa repleta de rosas vermelhas serei o seu anfitrião.
E com uma taça de vinho e uma língua maliciosa vou te tirar o grilhão.
Entre enigmas e olhares cansados descrevo-te a minha dor.
E ao final disso tudo, em teus braços, eu entro em torpor.

Thiago Rodrigues



ANJOS FERIDOS

Venha comigo meu anjo, não olhe pra trás.
Sua beleza é tão mórbida, quanto um jardim de lótus.
Eu sei que os sonhos caídos não estão mortos.
As palavras lúdicas, que te digo hoje, são reais.

Sempre me perco na neblina fria das noites.
Somos dois anjos feridos com cicatrizes vivas.
O absinto em nossas veias anestesia as feridas.
Sinto o sussurro frio e mórbido da morte.

Venha anjo ferido, não tenha medo.
Vou te conhecer por dentro como um gatuno.
Um espião antigo num jardim noturno.
Eu quero desvendar o seu último segredo.

Você mergulhou em meu caminho e deu-me a paz.
Trouxe-me a inspiração com seu rosto de pintura.
Gosto de sentir sua pele fria na mais alta arquitetura.
Escalou os meus sonhos distorcidos e me tirou do cais.

Ainda somos dois anjos feridos com cicatrizes vivas.
O absinto que aquece nossas veias anestesia as feridas.


Thiago Rodrigues.



ESPINHOS DO TEMPO

Entre minhas pinturas abstratas e surreais.
Vejo nascer à arte como há séculos atrás.
Eu mergulhei em teus olhos e dei-lhe a cura.
Como anjos dançando por terem fugido da tortura.

O sol está escondido e não pode nos denunciar.
E minhas páginas escuras assim vão continuar.
Com uma taça de vinho e entre abismos e quimeras cálidas.
Farei entre as asas das sombras uma pintura em sua pele pálida.

Sete espinhos do tempo em sete cores para despir.
Sete espinhos suspensos esperam sete dias pro fim.
Enclausurados por desejo e ambição, há uma fome não satisfeita.
Olhos cansados fitam o meu mundo, com as vendas da suspeita.

Sete espinhos escondidos nas curvas de suas costas nuas.
Enquanto rosas vermelhas caem sangrando pelas ruas.
A pintura tem vida e assassina à esfera de juízo.
O meu pincel desliza no caminho sul para o paraíso.

Thiago Rodrigues.




O REVELAR DA ALMA NUA.

O amor é uma quimera tortuosa e carente de respostas.
Muitos autores em seus delírios febris tentaram desvendá-lo,
Dando-lhe longos trajes teatrais e máscaras carnavalescas.
Tornando o acaso e a relatividade armas para entendê-lo.
O amor tem sido soterrado por hábeis atos de prestidigitação.

O homem sempre estará escondido em máscaras comportamentais.
Os interesses esculpem os diversos disfarces, que ocultam a alma.
Somos atores naturais e moldamos nossas identidades em jogos mentais.
Tornamo-nos signos e ficamos a mercê dos interpretadores, com calma.
Como pode nascer o amor junto ao blefe e a representação?

Deixamos no escuro os nossos medos e os pensamentos reprimidos.
Violamos nossos sonhos e deixamos a criança presa do armário.
Quem proclama esse amor não é a alma nua que está no abrigo,
Mas sim um dos muitos personagens do nosso vasto vestuário.
Se o amor, como a filosofia, busca a verdade, estamos em confusão.

Quem pode dizer quem é realmente, sem margem de erro ou dúvida?
Quem pode revelar limpidamente a sua alma tão escondida?
Quem pode amar a interpretação de um signo por toda uma vida?
Quem pode diante do espelho despir a alma e encontrar saída?
Com o revelar da alma nua o amor poderá sair da altercação.

Thiago Rodrigues.





METAFÍSICA

Você inspira-me a pintar o belo e destruir as cercas.
Consegue ser uma crítica ferrenha e acalentadora.
Nós somos tão voláteis e instáveis quanto a aurora.
Tão semelhantes, somos em nossas diferenças certas.

“Os opostos se atraem” disse um bastardo sem convicção.
Com efeito, isso acontece nas leis vigentes da física,
Mas o que temos transcende a física: como uma música.
Na metafísica, que é além da física, está nossa união.

Os semelhantes se atraem e os opostos se repelem.
O que é além da física o homem não destrói, por medo.
No que é sobrenatural a física não encosta o dedo.
Assim descrevo o que somos, é onde eu digo amém.

Que os opostos rasguem, com os estilhaços, a pele nua.
No grande espelho da discórdia, com suas bipolaridades.
Pois estamos juntos sem medo e sem corruptas banalidades.
Nunca hesitarei enquanto minha carne envelhecer junto à sua.

Thiago Rodrigues.




O PEQUENO PINTOR

Um garoto peralta e esperto eu conheço.
Não é bobo e tão pouco uma criança tímida.
Grandes histórias ele ouvia desde o berço.
Contadas com maestria pela mamãe querida.

Com as palavras ele brinca e expulsa o silêncio;
Como se fossem bolinhas de sabão no vento.
Apagar o ímpeto de uma criança é o pior dos vícios.
Pois deixa a criança no vazio do sofrimento.

Enquanto as crianças normais “pintavam” o sete.
Ele pintava, comigo, um belo quadro colorido.
Colocando as impressões digitais no mundo da arte.

Nossa amizade é forte e não é como essas de vidro,
Ela vai durar tanto quanto a primeira pintura dele.
Pintura imortalizada pelo pequeno pintor, comigo.


Thiago Rodrigues.


Nascimento de Vênus

A pálida dos cortes internos vem em meus sonhos.
Numa noite fria que dilacera meus olhos.
Eles roubaram minha cura ávida.
Tragam de volta minha alma esquálida.

Eu senti o nascimento de Vênus.
Em agonia eu sinto a falta nas pontas dos dedos.
A pálida dos cortes internos tocou minha íris com a língua,
Não conseguiu ver os antigos abismos que me deixam á míngua.

A cidade fria que tanto desprezo me faz uma nostálgica falta agora.
Minha serotonina ficou nos bolsos de Vênus quando fui embora.
As asas não escondem mais as cicatrizes frias do meu anjo caído.
Mas ela renascerá mais uma vez das cinzas do seu lamurioso abrigo.

Eu não jogo sal em antigas feridas, pois ainda há espaço para as novas.
A pálida tem o mapa do labirinto tortuoso da minha mente em lavas.
Quero que meus dedos sempre toquem o nascimento de Vênus com euforia;
Enquanto minha carne recebe o triste beijo do tempo sem anestesia.


Thiago Rodrigues.




A PENÚRIA DA AUSÊNCIA.

Minha alma curva-se e chora com a falta.
Sim, a falta da minha pintura viva e tangível.
Que mesmo longe toca meu ser triste e perecível.
A saudade molda os sentimentos que nos mata.

Escrevo irascivelmente minhas dores e angústias.
Só uma droga, pode tirar-me os despojos da penúria.
Só a embriaguez dessa pintura pode curar minha fúria,
Pelas crises existenciais que inflamam as minhas vísceras.

Corpos cruzam meu caminho, mas não sinto o tempo,
Jogando xadrez com a morte, valendo meu último fôlego.
Só me resta o rei e duas torres no seu impetuoso jogo.

Ela diz que ganhar dela é um esforço para abraçar o vento.
Sigo inabalável jogo à dentro, com o que ainda tenho de paciência.
Pois sei que o tempo não é o mesmo quando se está na penúria da (...)


Thiago Rodrigues.




CANCELE SEU ANALISTA

Você aí com a foice na mão tentando achar o pulso,
Pelado no escuro com os braços cortados e sem ar.
Você aí no corredor ficando mais fraco com as torturas,
Quebrando suas garrafas e arrombando as portas.

Você aí no sexto andar esperando só um impulso,
Com o rosto no aquário tentando ouvir o mar.
Você aí em coma caçado por miríades de criaturas,
Tentando digerir suas visões confusas e tortas.

Você aí com um álibi na manga domando muitos falos.
Com a rosa cheia de larvas e o clitóris inchado.
Cancele o seu analista, ele não vai mais lhe curar.

Você aí com a destruição com síndrome de cacos.
Desperdiçando a vida até o amanhecer dos fracos.
Diga adeus ao golpista, ele não vai mais lhe drogar.

Thiago Rodrigues.




DIÁLOGO COM O SUÍCIDIO

Boa noite meu caro, eu sou o suicídio e vim acordar-te.
Procuro pelas almas visionárias e viúvas da esperança.
Você despertou minha atenção e decidi encontrar-te.
Para provar que sua busca resume-se à minha herança,
Pois a morte é minha mentora, mas temos clientes distintos.

Como ousa interromper os sonhos em meu frágil sono?
Surge com seu corpo esguio, esgueirando-se pelas paredes.
Sussurrando em meus ouvidos palavras polidas pelo engano.
Já me basta a presença da morte que não pode saciar sua sede.
Ainda tenho que ouvir sua sedução como se eu fosse um dos famintos?

Meu caro, sou um ente poderoso e tenho sido muito solicitado.
Encontrar-me é a comprovação fidedigna do livre-arbítrio.
Escolher ativamente o instante do fim inevitável, num ato conjurado.
O poder de escolher a não existência é meu grandioso ofício,
E entrego-me a poucos, pois muitos são os que me procuram.

O livre-arbítrio é uma armadilha psicológica e tendenciosa,
Arrasta o homem às escolhas com múltiplas e afiadas motivações.
Fazendo eles se sentirem livres para abraçar a culpa vergonhosa.
Enquanto que nas entrelinhas: essa falsa liberdade camufla os grilhões.
Que parceria tem a vontade carnal com esse livre-arbítrio cego e estéril?

Não desperte minha ira, jovem insolente, estou dando-lhe um presente.
Ofereço-te um poder de escolha que foi negado até aos anjos caídos.
O homem nunca pediu a existência e foi jogado num jogo contingente.
O homem é o acidente orgânico do pós-coito híbrido dos acorrentados.
Diante dessa entropia entrego-me a ti, pois nem Deus pode ter-me.

Como pode alegar livre-arbítrio se até você seduz e corrompe as almas.
Os anjos não podem tocá-lo por que são imunes a seus argumentos.
Você rouba a endorfina dos desesperados, inflamando-lhes os dramas,
Brinca com a serotonina e espera o suspiro do último dos movimentos.
 você é só um ato de expurgação extrema e mortal.

Você esquiva-se como alguém que encontrou o ente Mutilação.
Ele invade e interrompe o meu trabalho sempre no último instante.
Ele espalha seus cortes e desperta meus clientes do torpor e da aflição.
Como um paliativo que se impõe ao meu evangelho inebriante.
Sendo assim, vejo que já encontraste esse ente em tempos antigos.

Decerto, já estive com esse ente por motivos diversos e reais.
Há muito tempo eu o agradeci e disse-lhe adeus para sempre.
Pois a música é minha amante e a pintura é o algoz das minhas leis.
A poesia é a guardiã das catedrais suspensas em minha mente.
E a filosofia o oráculo dos meus sonhos e das minhas visões.

A arte é uma aliada poderosa para uma alma nua e sedenta.
Suas nobres companhias possuem armas letais e dilacerantes,
Contra tudo que há de mais temido no homem que soluça e lamenta:
Os monstros vorazes que moram no outro lado com suas correntes.
Sendo assim, partirei agora e, por ora, deixarei você dormir em paz.

O Suicídio / O Visionário


Thiago Rodrigues.